quarta-feira, 28 de julho de 2010

Viagens são para pedalar

Por Julio Resende


Rafael: companheiro de viagem do Julio pela Estrada Real

O cicloturista e integrante do 10porhora, Julio Resende, apresentou em outubro de 2008 sua dissertação de mestrado com o tema ” Cicloturistas e suas percepções ambientais: Um estudo na Estrada Real”. 

Para produzir o estudo, Julio fez uma viagem pela estrada e entrevistou 28 cicloturistas com o objetivo de caracterizar o perfil socioeconomico de quem faz essa rota e também avaliar a percepção ambiental de uma viagem de bicicleta. “Este estudo revela a intensa forma de perceber o ambiente proporcionada pelas viagens de bicicleta na Estrada Real, além das qualidades do segmento cicloturismo, que podem beneficiar tanto os turistas quanto os residentes”, aponta Julio.

O estudo traz informações desde a motivação para o cicloturismo, passando para os beneficios dessa prática para o meio ambiente e a percepção do ciclista durante a viagem – reforçando a ideia de que a bicicleta nos proporciona uma interação maior com o ambiente, despertando os nossos sentimos e nos aproximando ainda mais com os modos de vida que cruzam os nossos caminhos.


Para 11 (39,29%) entrevistados, o contato com a natureza é também uma motivação:
O ato de pedalar proporciona uma interação intensa com a natureza, pois passam os dias constantemente ao ar livre, sentido, cheirando, ouvindo, vendo e degustando o ambiente. Em diversos momentos das entrevistas, banhos de cachoeiras, estradas em matas, rios sob pontes, travessias de serras, trilhas no cerrado foram citados como momentos especiais da viagem.

As viagens são para pedalar, não para chegar
A bicicleta é um dos principais motivos da viagem e o ato de pedalar é um dos prazeres dos cicloturistas. Percebe-se, por meio dos relatos, que chegar é menos importante do que ir. Ao comparar com viagens de carro, Raquel refletiu que “o gostoso da viagem de bicicleta é o deslocamento. De carro, o deslocamento é como se fosse uma parte em branco da viagem.”

Ao fazer a mesma comparação, Vinícius disse que, “[...] de carro, a pessoa viaja aos lugares para curtir lá. De bicicleta, a pessoa aproveita a locomoção [...]” Portanto, as cidades e os atrativos apenas compõem a viagem, pois ela se dá, na maior parte do tempo, nas estradas e trilhas. Erotides fez uma interessante correlação entre a sua viagem e uma de ônibus:

De ônibus, me sinto preso. É apenas um transporte para chegar aos lugares. Viajar de ônibus é igual a trabalhar. Tem horário para comer, ir ao banheiro. De bicicleta, eu fico livre para parar e fazer um monte de coisas. (EROTIDES)
 


Os cicloturistas viajam para descansar da rotina de trabalho e a liberdade proporcionada pela bicicleta os ajuda nesse processo, fato que pode ser percebido pelas palavras de Antônio Ricardo:
Eu não tenho pressa para chegar. Não tenho este tipo de preocupação. Eu pedalo e paro quando quero. Estou ali para descansar. Eu gosto de ir bem livre, sem tempo para as coisas. (ANTÔNIO RICARDO) 

Ao longo dos dias, os cicloturistas despedem muito tempo sozinhos, fato que acontece até mesmo com aqueles que viajam em grupo, pois nem sempre pedalam lado a lado com seus companheiros. E, como conseqüência dessa solidão, eles pensam e refletem muito durante a viagem, assim como relatou Rafael: 

A viagem de bicicleta me faz meditar e pensar na vida. Ela me possibilita muita reflexão e autoconhecimento. Enquanto estou pedalando, estou pensando. Eu penso em sexo, no trabalho, na família, na minha relação com as pessoas, nos acontecimentos do passado, nas minhas atitudes. (RAFAEL) 

Ao mesmo tempo em que a bicicleta proporciona uma intensa interação com o ambiente, os viajantes que percorrem rotas fazem também uma viagem introspectiva. Nelas, a região se apresenta a 10 km/h. Os cicloturistas relataram que um dia é sempre diferente do outro. Eles pedalam nas paisagens e passam por cidades, vales e montanhas sempre diferentes. A cada dia, uma nova padaria, pessoas desconhecidas, outra hospedagem, restaurantes com temperos e comidas diferentes. Essa novidade constante faz com que os cicloturistas estejam sempre contrapondo a sua realidade com a das pessoas e a do ambiente de viagem. Dessa forma, a percepção em viagens de bicicleta estimula a reflexão e o autoconhecimento. Sobre isso, Artur refletiu: 

Acho que a viagem de bicicleta possibilita um crescimento humano muito grande. Acho que isso acontece porque eu percebo muito as coisas. Eu vejo a realidade das pessoas do interior, aquelas que não têm nada e que a situação é realmente difícil. Isto me faz pensar porque tenho tudo. O aprendizado é muito grande, não tem como ficar indiferente com a realidade dura das pessoas. (ARTUR).

Os dez mandamentos do bom iclista


I
Usarás sempre capacete, luvas e todo equipamento de segurança.
II
Respeitarás sempre as leis de trânsito.
III
Respeitarás sempre o pedestre e a vida.
IV
Manterás sempre tua bicicleta em boas condições.
V
Guiarás sempre a 1 metro do meio-fio e sempre pela direita.
VI
Não ultrapassarás o sinal vermelho ou trafegarás pela contra-mão.
VII
Nunca guiarás de forma irresponsável ou correndo riscos.
VIII
Respeitarás sempre os ônibus, caminhões, carros e motocicletas.
IX
Sempre ajudarás ao ciclista em apuros.
X
Ensinarás a todos que devem sempre manter 1,5m ao ultrapassar um ciclista.

Capacetes Divertidos


Amigos, olhem só esses capacetes!
Tomara que algum dia deixem de ser apenas uma ideia... Seria muito divertido!


terça-feira, 27 de julho de 2010

Prazeres da estrada!

Por Jair Xavier (JOTA)

Sempre fui um apaixonado por esportes, ainda mais quando se trata de unir natureza e aventura. Foi em 2004 que tive a idéia de fazer uma viagem unindo minhas duas paixões, a bicicleta e estar próximo do mar.


Aliás, o mar sempre me fascinou, sempre que posso desço para o litoral para recarregar as baterias. Foi em uma dessas viagens para o litoral de São Paulo, sempre levando minha magrelinha, pneu balão de 18 marchas no bagageiro que nasceu a idéia de realizar minha primeira cicloviagem pelo litoral do estado de São Paulo, sozinho.

Maluquice? Pode até ser, até eu duvidei deste feito. Mas sonhei acordado, aliás, sonhar em estar em outro lugar é imaginar-se de algum modo diferente, renovado, novo. Buscamos aquilo que desejamos ser e muitas vezes encontramos isso em sonhos, projetos e viagens.

Da idéia que surgiu em agosto de 2004, fui montando o roteiro da viagem, lendo rotas e sobre o turismo das cidades que passaria. Com a caneta corria o mapa aberto na mesa, me transportando para aquele pedaço de papel como se já estivesse pedalando.

A bicicleta montei conforme desejava, peça por peça, tudo teria que estar pronto até maio de 2005, data marcada das minhas férias do trabalho.

Durante os doze dias da minha primeira viagem de bicicleta, entendi que o prazer não estava na chegada do meu destino final, a viagem acontece é no meio do caminho. Lugares belos, locais que de carro passei a 80 km/h e não vi por exemplo aquela bica d’agua no canteiro da estrada. A viagem estava ali, a cada pedalada e a cada curva.

Quando cheguei em Cananéia (SP) sul do estado de São Paulo, 12 dias depois de sair de Parati, percorrer 615 km e passar por mais de 120 praias, descobri a magia da viagem de bicicleta.

Com a bicicleta descobri o prazer do ventinho no rosto, e a possibilidade de encarar lugares que um carro não chegaria. Pedalo realmente por prazer, e com a bicicleta incentivei muitos amigos, fiz outros e sempre todos com a mesma intenção, de estar ali curtindo a natureza com as mãos no guidão e os olhos firmes no horizonte.

No ano seguinte, em mais uns dias de férias, realizei a segunda viagem do ponto de onde terminei a primeira, em Cananéia. De lá a idéia era partir até Florianópolis pelo litoral. Desta vez tudo era novidade, ler mapas e agora a tábua das marés, era um incentivo para poder mais uma vez pedalar há 20, 30 km/h e sentir o vento no rosto.

Minha família e alguns amigos até hoje não entendem o porquê das minhas viagens de bicicleta. Muitos ainda acham que é uma maluquice, outros entendem como uma prova. Eu descobri no prazer de viajar de bicicleta muitas coisas, conheci meus limites, soube me virar nos momentos difíceis, administrei minha solidão em muitos lugares, e de bike, eu apreciava em detalhes a beleza da natureza, antes nunca notada pela janela do meu carro.

Descobri até onde meu corpo agüenta trabalhar mesmo com dor e o mais importante, provei que nossos sonhos podem virar conquistas. Como li em uma frase do Amyr Klink no museu do mar em São Francisco do Sul (SC), “Porque um dia é preciso parar de sonhar, tirar os planos da gaveta e de algum modo começar”.

Com o Cicloturismo, ganhei novos amigos, vivenciei momentos inenarráveis e conheci pessoas do bem que me acolheram como se me conhecessem há muito tempo.

Descobri que viajar de bike hoje em minha vida é preciso. Basta eu escolher o caminho e fazer a minha própria estrada. Seja guiado por mapas, ajudados por outros ciclistas ou pedindo orientação dos moradores locais, não precisando me limitar aos caminhos preestabelecidos.

Guardo comigo um texto que li há muito tempo e resume o que é um dia viajando de bicicleta:

"Dias inteiros de calmaria,
 noites de ardentia,
 pés no pedal e olhos no horizonte,
descobri a alegria de transformar distâncias em tempo.
Um tempo em que aprendi a entender as coisas da natureza,
a conversar com o vento e o sol
 e não discutir com o mal tempo.
A transformar o medo em respeito,
o respeito em confiança.
 Descobri como é bom chegar quando se tem paciência.
E para se chegar onde quer que seja,
aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão.
É preciso antes de mais nada querer. "